Enquanto turistas cancelam viagens, milhares de libaneses espalhados pelo mundo embarcam para reencontrar suas famílias e preservar uma tradição que resiste aos conflitos
BEIRUTE, LÍBANO — Para quem acompanha o noticiário internacional, pode parecer improvável imaginar que famílias continuem desembarcando diariamente em Beirute durante um período marcado por ataques aéreos e incertezas. No entanto, essa é a realidade vivida neste verão libanês.
Apesar da guerra e das frequentes notícias sobre bombardeios no sul do país, milhares de integrantes da diáspora libanesa seguem viajando para passar as férias ao lado de seus familiares. Muitos chegam do Brasil, da França, do Canadá, da Austrália e de diversos países onde comunidades libanesas foram construídas ao longo das últimas décadas.
O Aeroporto Internacional Rafic Hariri, em Beirute, permanece em funcionamento. Embora as operações tenham passado por adaptações em determinados momentos por questões de segurança, o governo libanês mantém o aeroporto aberto sempre que as condições permitem, e a companhia aérea nacional ampliou voos para atender à demanda dos passageiros.
Grande parte desses visitantes não viaja com perfil de turista tradicional. São filhos, netos e bisnetos de libaneses que retornam para rever parentes, cuidar de propriedades da família, participar de casamentos, visitar igrejas, mesquitas e cemitérios, além de manter viva uma ligação que atravessa gerações.
O conflito, entretanto, mudou o mapa das viagens dentro do próprio país. Enquanto o sul do Líbano continua registrando ataques quase diários e permanece sendo a região mais afetada pela violência, muitos visitantes concentram sua permanência em Beirute, no norte do país e em cidades do Vale do Bekaa, onde familiares os recebem para a temporada de verão.
Mesmo nas áreas mais atingidas, centenas de moradores têm decidido voltar às suas casas. O retorno acontece em meio à incerteza e ao receio de novos ataques, mas revela o vínculo profundo que muitos libaneses mantêm com suas cidades de origem, mesmo diante dos riscos.
A guerra também trouxe consequências para o turismo internacional. Agências registraram cancelamentos de visitantes estrangeiros, afetando hotéis, restaurantes, festivais culturais e pequenos negócios que tradicionalmente dependem da movimentação do verão. Ainda assim, a presença da diáspora ajuda a manter parte da economia em funcionamento e representa um importante apoio para milhares de famílias libanesas.
Para muitos descendentes que vivem no Brasil, viajar ao Líbano neste momento significa muito mais do que fazer turismo. É uma forma de reencontrar a família, preservar a própria identidade e demonstrar que, mesmo em tempos difíceis, a ligação com a terra de seus antepassados continua mais forte do que o medo.
Direto de Beirute, o Jornal do Líbano acompanha os acontecimentos que ajudam a compreender não apenas o conflito, mas também a vida de um país que continua seguindo em frente.







