
BEIRUTE – Um ataque contra mulheres muçulmanas às vésperas do mês sagrado do Ramadã provocou forte indignação no Brasil e repercussão entre comunidades árabes no exterior. Na tarde de quinta-feira (12), um homem brasileiro de 33 anos foi preso após arrancar o hijab de uma mulher e agredir as vítimas de origem libanesa e síria na área externa de um shopping em Foz do Iguaçu, no sul do país.
Segundo o boletim de ocorrência, as vítimas, uma libanesa de 40 anos e uma síria de 48, faziam compras quando passaram a ser hostilizadas verbalmente pelo agressor, que teria gritado “volta para o seu país”. Em seguida, ele arrancou o véu de uma delas, tentou retirar o da outra e desferiu socos contra ambas. As mulheres apresentavam escoriações no rosto. A polícia foi acionada por volta das 16h (horário local) e encontrou o suspeito já contido por frequentadores. Ele foi conduzido à delegacia e autuado por lesão corporal. A ausência de enquadramento por intolerância religiosa gerou reação imediata de lideranças islâmicas.
O sheik Mohamad Khalil classificou o episódio como intolerância religiosa e defendeu resposta firme das autoridades para evitar repetição. O Centro Cultural Beneficente Islâmico de Foz do Iguaçu, responsável pela Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, divulgou nota afirmando que a liberdade religiosa é direito fundamental e pedindo rigor na aplicação da legislação brasileira. O sheik Oussama El Zahed repudiou o episódio e classificou a situação como gravíssima, divulgando um vídeo ressaltando a gravidade do caso.
A vereadora Anice Nagib Gazzaoui, uma das principais lideranças da comunidade árabe na Câmara Municipal de Foz do Iguaçu, declarou, por meio de vídeo, que o homem preso já é conhecido por episódios anteriores de hostilidade contra muçulmanos. Segundo ela, trata-se do mesmo indivíduo que já tentou agredir fiéis dentro de mesquitas da cidade em outras ocasiões. A parlamentar afirmou que o histórico reforça a caracterização de motivação religiosa e a necessidade de investigação mais rigorosa.
O shopping Cataratas JL informou que o caso foi isolado, que a equipe de segurança conteve o agressor conforme protocolo e que a polícia foi acionada imediatamente. O centro comercial declarou repúdio a qualquer forma de violência ou discriminação religiosa, étnica ou de gênero.
Cidade simbólica para a diáspora árabe no Brasil
Foz do Iguaçu abriga a segunda maior comunidade árabe do Brasil, atrás apenas de São Paulo. A presença libanesa e síria é histórica na região da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, onde mesquitas, escolas e centros culturais estruturam uma vida comunitária ativa e visível. A Mesquita Omar Ibn Al-Khattab é considerada uma das maiores da América Latina e referência religiosa para a diáspora. Além de estar entre o circuito turístico da tríplice fronteira.
A escolha do alvo, mulheres usando hijab, e o conteúdo das ofensas reforçam a interpretação de motivação religiosa e xenófoba segundo representantes comunitários. O hijab é símbolo identitário e espiritual para muitas muçulmanas e sua retirada forçada é considerada violação grave de dignidade e liberdade religiosa.
Às vésperas do mês sagrado
O episódio ocorre dias antes do início do Ramadã, período de jejum, oração e caridade para muçulmanos. Em comunidades islâmicas, o mês costuma ser acompanhado por aumento da presença em mesquitas e atividades públicas, o que amplia a visibilidade religiosa e, em contextos de tensão, a vulnerabilidade a ataques.
Lideranças árabes no Brasil e no Líbano afirmam que o caso gera preocupação adicional por atingir mulheres estrangeiras e símbolos religiosos em um país historicamente reconhecido por convivência multicultural.
Repercussão internacional
Em Beirute, organizações da diáspora acompanham o caso e cobram que as autoridades brasileiras reconheçam a dimensão de intolerância religiosa. Para representantes libaneses, o episódio desafia a imagem de hospitalidade do Brasil e afeta diretamente a segurança de cidadãos árabes residentes ou visitantes.
A expectativa da comunidade é que a investigação considere agravantes de discriminação religiosa e xenofobia. Enquanto isso, entidades islâmicas reforçam orientações de segurança para mulheres e pedem solidariedade inter-religiosa. O caso reacende o debate sobre o reconhecimento jurídico da islamofobia no Brasil, especialmente em cidades com forte presença muçulmana.






