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Dois descendentes de libaneses disputam São Paulo e colocam a maior diáspora do mundo no centro da eleição

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"Hoje, não tem um político que não me respeita," disse Tebet. Imagem: Campanha

Fernando Haddad e Simone Tebet concorrem aos principais cargos em disputa no estado que abriga a maior comunidade libanesa fora do Líbano. A campanha reacende o debate sobre o peso político, econômico e cultural da diáspora libanesa no Brasil.

Beirute – As eleições de outubro no Brasil colocam, pela primeira vez em muitos anos, dois políticos descendentes de famílias libanesas na linha de frente da disputa pelos principais cargos do estado brasileiro que concentra a maior comunidade de origem libanesa fora do Líbano, no estado de São Paulo.

Fernando Haddad é o candidato do Partido dos Trabalhadores ao Governo de São Paulo. Simone Tebet disputa uma das vagas ao Senado Federal pelo mesmo estado. Embora representem trajetórias políticas diferentes e partidos distintos, ambos compartilham uma característica que desperta atenção dentro e fora do Brasil: a origem libanesa de suas famílias.

Mais do que uma coincidência, a presença dos dois candidatos na mesma chapa eleitoral reacende o debate sobre a influência histórica da comunidade libanesa na política, na economia e na sociedade paulista.

Estima-se que o estado de São Paulo reúna a maior concentração de descendentes de libaneses fora do Oriente Médio. Ao longo de mais de um século, imigrantes vindos do Líbano ajudaram a construir importantes setores do comércio, da indústria, da medicina, do direito e da vida pública brasileira.

Essa presença transformou a comunidade em uma das mais influentes da diáspora libanesa no mundo.

Nos últimos dias, Haddad e Tebet participaram de um encontro com empresários e representantes da comunidade árabe em São Paulo. Durante o evento, os dois destacaram suas origens familiares e ouviram reivindicações de comerciantes, empresários e lideranças religiosas, em um movimento interpretado como uma aproximação com um eleitorado historicamente organizado e influente no estado.

Fernando Haddad tem ressaltado, durante a campanha, a história de sua família, descendente de libaneses, cuja trajetória empresarial começou no tradicional comércio paulistano. A campanha também passou a destacar publicamente essa herança familiar como parte de sua narrativa política.

Simone Tebet também possui raízes libanesas. Filha do ex-presidente do Congresso Nacional Ramez Tebet, descendente de imigrantes do Líbano, ela construiu toda a sua carreira política em Mato Grosso do Sul, onde foi prefeita, deputada estadual, vice-governadora e senadora.

A decisão de disputar uma vaga ao Senado por São Paulo marcou uma mudança importante em sua trajetória política.

Nas eleições presidenciais de 2022, Tebet teve desempenho abaixo das expectativas em seu estado natal, Mato Grosso do Sul, inclusive em Três Lagoas, município onde nasceu e iniciou sua carreira política. O resultado provocou análises sobre o desgaste de sua base eleitoral histórica e abriu espaço para questionamentos sobre o novo caminho escolhido pela ex-ministra.

Ao anunciar sua candidatura por São Paulo, Tebet afirmou que a decisão está relacionada ao fato de o estado representar um novo projeto político e ao apoio recebido de aliados nacionais. Ela também argumentou que São Paulo foi um dos estados onde sua candidatura presidencial encontrou maior receptividade, rejeitando a interpretação de que a mudança decorre exclusivamente do desempenho eleitoral em Mato Grosso do Sul.

Ainda assim, a escolha chama atenção por deslocar uma liderança política tradicionalmente ligada ao Centro-Oeste para o maior colégio eleitoral do país.

Além de ser o estado mais populoso do Brasil, São Paulo concentra uma comunidade de origem libanesa estimada em milhões de descendentes, distribuídos entre bairros tradicionais da capital, cidades do interior e importantes polos empresariais.

Ao longo de décadas, essa comunidade participou da formação de alguns dos maiores centros comerciais brasileiros, como as regiões da Rua 25 de Março, Brás e Santa Ifigênia, locais que mantêm forte presença de famílias de origem libanesa e sírio-libanesa.

O peso econômico dessa comunidade faz com que qualquer aproximação política seja observada com atenção durante as campanhas eleitorais.

Especialistas lembram, no entanto, que o voto da comunidade libanesa não forma um bloco homogêneo. Assim como ocorre com o restante do eleitorado paulista, as preferências políticas são diversas e atravessam diferentes correntes ideológicas, gerações e segmentos sociais.

Ainda assim, a valorização das origens familiares tem sido utilizada pelos candidatos como forma de reforçar vínculos culturais e históricos com um grupo que ajudou a transformar São Paulo em um dos maiores centros econômicos do hemisfério sul.

A eleição de outubro também simboliza um momento singular para a diáspora libanesa.

Independentemente do resultado das urnas, dois descendentes de imigrantes do Líbano ocupam posições de destaque em uma das disputas eleitorais mais importantes do Brasil.

Para a comunidade libanesa, trata-se de mais um capítulo de uma história construída ao longo de gerações, marcada pela imigração, pelo empreendedorismo e pela participação crescente na vida pública brasileira.