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Fome avança no Líbano e já afeta famílias de diferentes classes sociais

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População fugindo de Dahyeh após Israel ameaçar atacar novamente. Imagem: Reprodução

Relatório apoiado pela ONU alerta para avanço da fome no país enquanto conflito amplia pressão econômica, deslocamentos e redução no acesso a alimentos básicos

Beirute — A crise provocada pela guerra no Líbano já ultrapassa os impactos imediatos sobre segurança e infraestrutura e atinge diretamente a alimentação da população. Um novo relatório conjunto da Food and Agriculture Organization, do World Food Programme e do Ministério da Agricultura do Líbano aponta que a insegurança alimentar passou a afetar todos os grupos populacionais no país.

O estudo indica que a deterioração das condições econômicas, combinada ao conflito e aos deslocamentos internos, ampliou o número de famílias incapazes de manter acesso regular a alimentos básicos.

Entre famílias libanesas, a projeção é de que aproximadamente 725 mil pessoas, o equivalente a 19% do grupo analisado, enfrentem níveis de crise ou condições ainda mais graves de insegurança alimentar aguda.

O relatório destaca que a situação se tornou crítica não apenas entre grupos historicamente vulneráveis, mas também em segmentos antes considerados mais estáveis economicamente. Famílias de diferentes perfis sociais vêm reduzindo quantidade e qualidade da alimentação, pulando refeições e reorganizando gastos para priorizar itens essenciais.

Nos níveis mais severos da crise, famílias deixam de suprir necessidades alimentares de forma consistente e passam a recorrer a estratégias consideradas prejudiciais de sobrevivência, como endividamento, venda de bens essenciais e redução drástica do consumo.

Entre populações deslocadas e grupos vulneráveis, o cenário é ainda mais grave. Cerca de 362 mil refugiados sírios, equivalente a 36% do grupo analisado, e aproximadamente 104 mil refugiados palestinos, ou 45%, estão classificados em fase de crise ou pior.

As populações recém-chegadas da Síria desde 2024 aparecem entre as mais afetadas, com cerca de 50 mil pessoas, ou 52%, projetadas para enfrentar insegurança alimentar aguda.

A crise humanitária ocorre em paralelo à continuidade dos ataques no país. Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, desde 2 de março, ataques israelenses deixaram 2.576 mortos e 7.962 feridos.

A combinação entre violência contínua, deslocamentos, fragilidade econômica e pressão sobre cadeias de abastecimento agrava um cenário já delicado e amplia a percepção de que nenhuma camada da sociedade libanesa está completamente isolada dos efeitos da guerra.

No Líbano de hoje, a guerra não impacta apenas fronteiras ou estruturas militares. Ela chega às mesas das famílias, altera hábitos alimentares e aprofunda um sentimento crescente de insegurança social em todo o país.