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Ouro Verde Libanês: Azeite de Koura Impulsiona a Economia Libanesa e Conquista o Paladar Brasileiro

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Os empresários seguem com foco no mercado brasileiro, ofertando azeite libanês de alta qualidade. Imagem: Arquivo Pessoal

Beirute, Líbano — A indústria do azeite libanês vive um novo ciclo de prosperidade e resistência, transformando-se em símbolo de excelência e superação no mercado internacional. Esta reportagem inaugura a série especial “Ouro Verde Libanês”, um mergulho na tradição e na modernização do setor oleícola do país, que encontra no Brasil um dos seus mais promissores mercados consumidores.

No epicentro desta história está o empresário Ahmad Chalak, que, ao lado da nutricionista e especialista em azeite Margherita Bedran, lidera a retomada e a expansão de uma das mais tradicionais produções de azeite do Líbano, na região de Koura, norte do país. Formado em Direito, Ahmad conheceu Margherita na faculdade e, com ela, decidiu transformar a tradição familiar em um empreendimento com foco na qualidade e no mercado global.

A família de Margherita detém vastas terras em Koura, localidade reconhecida pela excelência na produção de azeite. Foi em 1993 que os familiares deram início ao empreendimento, investindo, já naquela época, em tecnologia de ponta. A produção ganhou fôlego em 1996 e se manteve ativa até 2002, sempre administrada pela mãe de Margherita e seu tio materno.

A falta de mão de obra especializada para a gestão dos negócios levou ao fechamento temporário da produção, que só foi retomada em 2020, um dos anos mais desafiadores para a economia libanesa. Com a moeda local desvalorizada e o país mergulhado em sucessivas crises políticas e sociais, empreender se transformou em um ato de pura resiliência.

Diante de tantos obstáculos, o protagonismo feminino ressurgiu como força motriz. Margherita liderou a modernização e o reposicionamento da marca, conquistando novos mercados internacionais. Hoje, a produção conta com equipamentos altamente tecnológicos e processos automatizados, mas preserva, na colheita, o espírito artesanal e comunitário que caracteriza a tradição libanesa.

A colheita das azeitonas é um momento de fortalecimento dos laços familiares e de amizade. Todos se reúnem para colher manualmente os frutos, preservando as centenárias oliveiras. Além disso, a família Chalak-Bedran abre espaço para pequenos produtores da região, que podem levar suas azeitonas para moer e receber como pagamento azeite ou dinheiro, garantindo, assim, a manutenção de uma cadeia produtiva diversificada e de altíssima qualidade.

A colheita feita em Koura. Imagem: Arquivo Pessoal

O segredo para manter a excelência do azeite está nos cuidados com o solo e com as oliveiras. Após cada safra, são realizados investimentos contínuos para garantir que as árvores produzam azeitonas saudáveis e de baixa acidez. A colheita ocorre nas últimas semanas de setembro, pouco antes das primeiras chuvas previstas para outubro, o que garante um produto mais leve e com um perfil sensorial mais sofisticado.

A altitude de Koura confere condições privilegiadas para o cultivo das oliveiras, contribuindo para a qualidade superior do azeite. Esse investimento já rendeu prêmios internacionais, incluindo uma premiação recente na Espanha, abrindo novas portas para a exportação e consolidando a marca Kora Greens como referência global.

Apesar do potencial agrícola, produtores libaneses ainda enfrentam a falta de incentivos governamentais, diferentemente de outros países concorrentes. O Líbano passou anos sem presidente, mergulhado em uma crise institucional que afetou diretamente o agronegócio. Agora, representantes do setor acreditam que poderão obter maior visibilidade e políticas públicas de apoio.

A colheita ainda é feita de forma manual. Imagem: Arquivo Pessoal

Outro desafio enfrentado pelos empresários está no custo elevado dos fertilizantes, cobrados em dólar, o que impacta diretamente no preço final do azeite. Essa realidade, aliada à complexidade tributária brasileira, dificulta a inserção mais competitiva no mercado nacional, já que cada estado no Brasil adota diferentes políticas de impostos sobre importação.

Ainda assim, Margherita e Ahmad apostam no mercado brasileiro como um dos principais destinos para o azeite libanês. A participação em feiras internacionais tem sido estratégica para posicionar o produto. O design das embalagens é pensado especialmente para atender às exigências do mercado externo, reforçando o apelo cultural e a qualidade premium do azeite libanês.

“O brasileiro está mais atento ao que consome, busca qualidade e valoriza produtos que contam uma história”, explica Margherita, que é nutricionista clínica multilíngue, especialista certificada em azeite de oliva e empreendedora focada na saúde, cultura libanesa e sustentabilidade. Ela possui mestrado em Nutrição Clínica pela University College London (UCL) e bacharelado em Nutrição e Dietética pela Universidade Americana do Líbano.

Foi com essa visão que, em 2023, Margherita fundou a Kora Greens e expandiu a atuação da marca para o Brasil por meio da Líbano Gourmet. Até o final de 2025, eles projetam exportar mais de 50 mil litros de azeite para o mercado brasileiro, marcando um importante avanço para o agronegócio libanês.

O azeite Kora foi premiado na Espanha. Mercado especializado em azeites de qualidade. Imagem: Arquivo Pessoal

A aposta no mercado brasileiro é estratégica. “O consumidor brasileiro hoje consome, em média, duas garrafas de 500 ml de azeite por mês”, explica Margherita, que além de nutricionista com mestrado pela University College London, é uma referência internacional em azeites de oliva. Ela acompanha de perto todo o processo de qualidade, da colheita ao envase, com foco não apenas na saúde, mas também na sustentabilidade e na valorização da cultura libanesa.

A marca aposta em uma estratégia de marketing humanizado, aproximando o consumidor da origem do produto e compartilhando toda a trajetória da colheita artesanal nas colinas de Koura até a mesa do consumidor brasileiro. “Estamos muito atentos ao que existe de mais novo no mercado do azeite e trazemos para a nossa produção, sempre com foco na qualidade do produto final”, afirma Ahmad.

Além disso, a empresa mantém o compromisso de comprar a produção de pequenos produtores da região, fortalecendo a economia local e promovendo a sustentabilidade. Atualmente, a marca está presente em mais de 200 pontos de venda no Brasil, incluindo supermercados e restaurantes renomados.

A história do azeite libanês que chega ao Brasil não é apenas sobre comércio, mas sobre tradição, resistência e inovação. O “ouro verde” de Koura, conduzido pelas mãos habilidosas e visionárias de Margherita e Ahmad, simboliza a força da indústria libanesa e seu potencial de conquistar cada vez mais espaço no cenário internacional.

Na próxima reportagem da série “Ouro Verde Libanês”, vamos conhecer outros produtores libaneses e entender como o cooperativismo tem ajudado pequenos agricultores a se manterem no mercado internacional.